Em maio de 2026, a Síndrome dos Ovários Poliquísticos (SOP) passou a designar-se Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP) ou, em inglês, Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome (PMOS).
A proposta para a nova nomenclatura foi publicada na revista The Lancet e assinada por um consórcio internacional liderado pelo Monash Centre for Health Research and Implementation. O processo demorou cerca de 14 anos a concluir-se, o que dá uma ideia de como esta não foi uma decisão tomada de ânimo leve.
Para quem trabalha em nutrição e acompanha mulheres com esta condição, vale a pena perceber não só a mudança em si, mas o que ela revela sobre a forma como a síndrome está a ser repensada e o que isso pode significar para a nossa prática clínica.
Porque é que o nome mudou?
A justificação central do consórcio assenta em três pontos.
- O termo “poliquístico” era impreciso e induzia em erro.
As estruturas observadas nos ovários por ecografia não são, na maioria dos casos, quistos no sentido patológico da palavra. São folículos que interromperam o seu desenvolvimento devido a alterações hormonais. Chamar-lhes “quistos” gerava confusão e, muitas vezes, ansiedade desnecessária nas pacientes, além de sugerir uma causa que não corresponde ao que realmente acontece fisiologicamente.
- O foco exclusivo nos ovários não refletia a natureza sistémica da condição.
Ao longo das últimas décadas, a investigação consolidou aquilo que já era senso comum clínico: a síndrome vai muito além da ovulação e da fertilidade. Está associada a resistência à insulina, maior risco de diabetes tipo 2, alterações cardiovasculares, hiperandrogenismo, alterações cutâneas e impacto significativo na saúde mental. Um nome centrado apenas nos ovários deixava de fora tudo isto e, na prática, pode ter contribuído para que estas dimensões fossem subvalorizadas no acompanhamento clínico.
- O nome antigo contribuía para atrasos no diagnóstico.
Uma parte relevante das mulheres com a síndrome não apresenta morfologia ovárica poliquística nos exames de imagem, apesar de terem os restantes critérios clínicos. Nestes casos, o nome “ovários poliquísticos” pode ter levado a subestimar sintomas ou a atrasar diagnósticos, precisamente porque o achado que dá nome à condição pode nem sequer estar presente.
O que significa SOMP?
O novo nome distribui-se por três eixos que, segundo o consórcio, descrevem melhor a condição:
Poliendócrina — reflete o envolvimento de múltiplos eixos hormonais, incluindo o hiperandrogenismo e as alterações na ação da insulina.
Ovariana — mantém-se a referência aos ovários, reconhecendo o seu papel central em sintomas como anovulação e irregularidade menstrual.
Metabólica — destaca a resistência à insulina e o risco aumentado de diabetes tipo 2, obesidade e doença cardiovascular.
O que muda no diagnóstico?
Os critérios de diagnóstico não foram alterados por esta mudança de nome. Continuam a ser os Critérios de Rotterdam, que exigem a presença de pelo menos dois dos três critérios abaixo:
- Morfologia de ovários poliquísticos à ecografia ou volume ovárico aumentado;
- Sinais clínicos ou laboratoriais de excesso de andrógenos;
- Ciclos menstruais irregulares ou ausentes (anovulação).
O que pode mudar na prática clínica?
Ainda que os critérios de diagnóstico se tenham mantido, o novo nome sinaliza claramente para onde a investigação e a prática clínica deverão caminhar:
- Uma avaliação clínica mais alargada
A nova nomenclatura passa a abranger os eixos metabólico e hormonal, reforçando a expectativa de que a avaliação de uma mulher com esta síndrome passe a valorizar sistematicamente parâmetros como glicemia, perfil lipídico e resistência à insulina.
- Um seguimento mais preventivo e de longo prazo
A ênfase metabólica reforça a necessidade de acompanhamento continuado ao longo da vida da mulher, com atenção à prevenção de complicações cardiovasculares e metabólicas, e não apenas ao período em que a fertilidade é uma preocupação ativa.
- Um tratamento cada vez mais multidisciplinar, em que a nutrição ganha um papel de destaque
Ao consolidar-se como uma condição endócrino-metabólica e não apenas ginecológica, a SOMP reforça aquilo que a evidência já apontava: que o tratamento eficaz depende de uma abordagem integrada entre várias especialidades médicas e terapêuticas complementares, como a ginecologia, endocrinologia, dermatologia, nutrição e psicologia. A intervenção nutricional deixa de ser vista como um complemento e passa a poder integrar, de forma mais explícita, o núcleo do tratamento precisamente por atuar diretamente sobre os mecanismos que dão nome à síndrome.
Conclusão
Em resumo, a mudança de SOP para SOMP não altera, para já, a forma como se diagnostica a condição, mas altera a forma como é entendida. Para nós, nutricionistas, é um reconhecimento formal de algo que já sabíamos pela evidência: gerir esta síndrome de forma adequada e precisa exige uma abordagem que vai muito além da saúde reprodutiva.
Referências bibliográficas
- Teede, H. J., Khomami, M. B., Morman, R., Laven, J. S. E., Joham, A. E., Costello, M. F., Patil, M., Rees, D. A., Berry, L., Cree, M. G., Zhao, H., Norman, R. J., Dokras, A., Piltonen, T., & Global Name Change Consortium (2026). Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. Lancet (London, England), 407(10545), 2329–2339. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(26)00717-8


